Crônica de Natal

O final do ano está chegando; com ele, um dos maiores problemas enfrentados pela sociedade: o consumo de uva-passa. Capaz de deteriorar famílias – pois muitos saem de casa nessa época para não ter que encarar a fruta no panetone, no arroz ou até mesmo na farofa –, ele também é a porta de entrada para substâncias mais pesadas, como o frango recheado com abacaxi e a maionese com maçã.

Prevendo a polêmica que o alimento poderia gerar, a língua portuguesa antecipadamente fez com que seu nome soasse como um alívio, batizando-o de uva “passa”. Afinal, se fosse uva “fica”, aí que ninguém comeria mesmo – com medo de que o incômodo gosto adocicado pudesse durar eternamente na boca.
Mas, se de um lado existe o cuidado de nosso vernáculo, de outro persiste o desleixo dos anfitriões das refeições, que nunca anunciam previamente a fruta. Daí, quando olhamos para aquela manchinha preta na comida, imaginamos toda a sorte de coisas boas – na farofa, quem sabe sejam pedaços de carne seca; no panetone, gotas de chocolate. A frustração ao deglutir a farsa é inevitável, mas a controlamos por consideração ao nosso algoz: mesmo ludibriados, não cai bem constranger a quem nos serviu.

A insatisfação é bem semelhante a vivida em outra situação, que coincidentemente acontece na mesma época: falo do recebimento de presentes de Natal. Quando crianças, sempre tinha alguém que nos dava uma embalagem enorme. Então abríamos ansiosamente, na esperança de ser um videogame, e lá estava uma uva-passa disfarçada de kit com doze cuecas de algodão.

A realidade é que a uva-passa nos acompanha por toda a vida. Quando adultos, aí que experimentamos várias delas. Lembra da vez em que o teu chefe te chamou para conversar e você pensou que ganharia um aumento? Pois é, foi mesmo um aumento – de cobrança. E aquele “match” maravilhoso do Tinder, que antes mesmo de se encontrarem parecia o par perfeito? Não deu certo porque ao vivo a pessoa era um pé no saco.

Isso leva a crer que a uva-passa, na verdade, é uma valiosa lição. Esse ensinamento gastronômico quer dizer nada mais que: mesmo no prato mais saboroso, ainda é preciso tomar cuidado, pois ali pode haver uma decepção. E o que fazer com as decepções? Não sei você, mas eu particularmente as separo e sigo em frente, assim como faço com as uvas-passas. Porque, apesar de ter muito panetone de fruta durante a vida, vez ou outra ainda encontramos um chocotone, e ele faz valer toda a espera.

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